Poucas plantas acompanham a humanidade há tanto tempo e com tanta delicadeza quanto a camomila. Basta abrir um saquinho com suas flores secas ou aproximar o rosto de uma xícara recém-preparada para reconhecer de imediato seu aroma doce, suave e inconfundível.
Presente em quintais, feiras e despensas ao redor do mundo, a camomila ultrapassou gerações como o símbolo máximo de pausa e acolhimento. Seja para acalmar as ideias ao fim de um dia agitado ou para confortar o corpo após uma refeição mais pesada, essa pequena flor amarela e branca conquistou um lugar cativo na cultura popular e no cotidiano das famílias.
1. O que é a camomila?
A camomila é uma planta herbácea anual pertencente à família Asteraceae — a mesma família botânica do girassol e da margarida.
Embora existam diferentes espécies conhecidas popularmente por esse nome, a mais utilizada e estudada no mundo todo é a Matricaria chamomilla L. (também referida na literatura botânica como Matricaria recutita L.), popularmente conhecida como camomila-comum, camomila-alemã ou simplesmente camomila.
Suas flores são pequenas, formadas por um centro amarelo proeminente cercado por pétalas brancas. São justamente os capítulos florais (as inflorescências) que concentram os óleos essenciais e compostos ativos de interesse, sendo a única parte utilizada no preparo das infusões e nos extratos medicinais.
2. De onde vem?
Originária do Sul e Leste da Europa, bem como do Oeste da Ásia, a camomila é uma planta extremamente adaptável. Ao longo dos séculos, acompanhou as migrações humanas e espalhou-se por praticamente todos os continentes.
Hoje, é cultivada em larga escala em países europeus (como Hungria, Alemanha e Rússia), na Ásia, na América do Norte e na América do Sul. No Brasil, encontrou excelente adaptação em regiões de clima temperado e subtropical, sendo o estado do Paraná um dos maiores produtores nacionais da planta.
A camomila prefere solos bem drenados, ensolarados e climas amenos. Suas flores são colhidas no auge da floração e passam por um processo delicado de secagem para preservar o aroma e as propriedades das pétalas e do receptáculo.
3. A história e a tradição
A trajetória da camomila confunde-se com a própria história da medicina natural. Há registros do seu uso em civilizações antigas como o Egito, a Grécia e a Roma Antiga.
Os egípcios dedicavam a flor ao deus do Sol, Rá, devido à sua aparência radiante, e a utilizavam tanto em rituais quanto para tratar febres. Na Grécia Antiga, médicos renomados como Dioscórides e Galeno já registravam o uso da planta em suas compilações sobre ervas medicinais. O nome Matricaria, aliás, deriva do latim matrix (útero), uma referência histórica ao uso da flor nas tradições populares voltadas à saúde feminina e ao alívio de cólicas.
Na Europa Medieval, era comum espalhar flores de camomila pelo chão das casas durante festividades para perfumar o ambiente quando pisadas. Com o tempo, a infusão de suas flores secas estabeleceu-se como um remédio caseiro universal, passado de geração em geração para acalmar crianças e adultos.
4. Ao que a camomila está relacionada?
A sabedoria popular sempre associou a camomila ao relaxamento, ao alívio de desconfortos digestivos e ao cuidado com a pele. A ciência moderna, por sua vez, investiga ativamente seus compostos químicos — como os flavonoides (em especial a apigenina) e os componentes do óleo essencial (como o alfa-bisabolol e o camazuleno).
Conforme documentado no Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, publicado pela Anvisa, a camomila é oficialmente reconhecida por suas propriedades e atua em diferentes frentes:
- Ação antiespasmódica e anxiolítica leve: O Ministério da Saúde e a Farmacopeia Brasileira indicam a infusão de camomila para o alívio de espasmos musculares leves, ansiedade moderada, insônia e desconfortos gastrintestinais leves.
- Ação anti-inflamatória e cicatrizante tópica: O uso externo da infusão ou de extratos é tradicionalmente associado ao alívio de inflamações na mucosa oral (bochechos e gargarejos) e lesões superficiais na pele (compressas).
Estudos científicos sugerem que a apigenina presente na flor liga-se aos mesmos receptores cerebrais que certos tranquilantes, o que explica de forma parcial o efeito suavemente calmante relatado por quem consome a bebida.
5. Como preparar o chá
O método adequado para extrair os óleos essenciais e flavonoides das flores de camomila sem perder o aroma é a infusão. Não se deve ferver a flor diretamente na água.
Abaixo, apresentamos a orientação de preparo baseada nas diretrizes oficiais do Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira (Anvisa):
Ingredientes e Proporção
- Flores secas de camomila: 1 a 3 gramas (aproximadamente 1 colher de sopa cheia);
- Água: 150 mL (uma xícara de chá).
Modo de Preparo
- Ferva a água e desligue o fogo assim que começarem a surgir as primeiras bolhas.
- Coloque as flores secas de camomila em uma xícara ou bule.
- Despeje a água quente sobre as flores.
- Tampe imediatamente o recipiente para evitar que os óleos essenciais voláteis se evaporem.
- Deixe em infusão por 5 a 10 minutos.
- Coe o líquido e consuma morno.
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Para quem busca alívio para a digestão, a recomendação tradicional é consumir uma xícara após as refeições. Para auxiliar no relaxamento, uma xícara cerca de 30 a 60 minutos antes de dormir é o costume mais habitual.
6. Cuidados e precauções
Apesar de ser uma das plantas medicinais mais seguras e consumidas no mundo, o consumo de camomila exige algumas atenções simples:
- Alergias: Pessoas com alergia conhecida a plantas da família Asteraceae (como crisântemos, margaridas, girassóis ou ambrósia) podem apresentar reações alérgicas ao consumir ou aplicar a camomila.
- Gestação e amamentação: Embora o uso ocasional como bebida seja comum, o consumo em grandes doses ou em uso terapêutico contínuo durante a gravidez deve ser avaliado por um profissional de saúde.
- Interações medicação-planta: Devido à presença de derivados coumarínicos em sua composição, o uso excessivo pode, em teoria, potencializar o efeito de medicamentos anticoagulantes. Pessoas em tratamento cirúrgico prévio ou que usam sedativos fortes devem ter moderação.
Se houver sintomas persistentes de ansiedade ou distúrbios do sono, a busca por orientação médica é sempre recomendada.
7. Curiosidades
- O azul radiante do óleo essencial: Embora a flor da camomila seja amarela e branca, seu óleo essencial concentrado possui uma cor azul-intensa e profunda. Isso ocorre devido ao camazuleno, um composto formado durante o processo de destilação a vapor.
- “Médica das plantas”: No meio agrícola e no cultivo biodinâmico, a camomila é considerada uma planta companheira excelente. Acredita-se que sua presença no solo melhora a saúde de vegetais vizinhos e repele algumas pragas.
- Uso cosmético secular: A infusão de camomila é historicamente utilizada para realçar os reflexos dourados de cabelos claros e acalmar a pele após exposição ao sol.
8. Conclusão
A camomila sintetiza com perfeição o ponto de encontro entre o conhecimento tradicional e o rigor científico. Seja pelo amparo de estudos modernos ou pela memória afetiva de uma receita familiar, uma xícara dessa infusão continua sendo um convite diário à desaceleração e ao bem-estar.
Fontes consultadas
- ANVISA. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira. 2ª edição. Brasília: Agência Nacional de Vigilância Sanitária, 2021. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br
- BRASIL. Ministério da Saúde. Afit – Ajudante de Fitoterapia / Relação Nacional de Plantas Medicinais de Interesse ao SUS (RENISUS). Brasília: Ministério da Saúde. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br
- BIBLIOTECA VIRTUAL EM SAÚDE (BVS). Matricaria recutita (Camomila). BVS MS. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br
- PUBMED / NATIONAL CENTER FOR BIOTECHNOLOGY INFORMATION (NCBI). Srivastava, J. K., Shankar, E., & Gupta, S. (2010). Chamomile: A herbal medicine of the past with bright future. Molecular medicine reports, 3(6), 895–901. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
FAQ
Para que serve o chá de camomila?
O chá de camomila é tradicionalmente utilizado para aliviar desconfortos digestivos leves, espasmos abdominais, além de atuar como um calmante suave em casos de ansiedade leve e insônia. A flor possui compostos com propriedades anti-inflamatórias e antiespasmódicas reconhecidas em compêndios oficiais.
Fonte: ANVISA — Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira https://www.gov.br/anvisa/pt-br
Como preparar o chá de camomila corretamente?
A forma correta é por infusão: adicione de 1 a 3 gramas (cerca de 1 colher de sopa) de flores secas de camomila em uma xícara (150 mL) de água recém-fervida. Tampe o recipiente, deixe descansar de 5 a 10 minutos, coe e beba morno.
Fonte: ANVISA — Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira https://www.gov.br/anvisa/pt-br
Chá de camomila pode ser tomado todos os dias?
Sim, o consumo moderado de chá de camomila (1 a 3 xícaras ao dia) é considerado seguro para a maioria das pessoas saudáveis. No entanto, o uso diário e prolongado não deve substituir tratamentos médicos para insônia ou ansiedade crônicas.
Fonte: Biblioteca Virtual em Saúde (BVS/MS) https://bvsms.saude.gov.br
Chá de camomila tem contraindicação?
É contraindicado para pessoas com hipersensibilidade ou alergia comprovada à camomila ou a outras plantas da família Asteraceae. Também deve ser consumido com cautela por pessoas que utilizam medicamentos anticoagulantes ou sedativos potentes.
Fonte: Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira — ANVISA https://www.gov.br/anvisa/pt-br
O chá de camomila ajuda a dormir?
A camomila contém flavonoides como a apigenina, que interagem com receptores no cérebro associados ao relaxamento. Por isso, a bebida é amplamente utilizada para preparar o corpo para o descanso, promovendo uma sensação suave de tranquilidade antes de dormir.
Fonte: PubMed / National Institutes of Health https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov


